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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Belas Adaptações


Após alguns anos de indefinição, o famigerado projeto de levar para as telinhas o romance Deuses Americanos, de Neil Gaiman, finalmente ganhou luz verde e agora se encontra em pré-produção. A opção de entregar a adaptação às mãos do incompreendido e mal-agourado
showrunner Bryan Fuller foi corajosa e até inspirada, haja vista que dificilmente tu vês por aí direções de arte com tanta identidade, arroubos sombrios e momentos de surrealismo puro quanto à de produtos como Pushing Daisies ou Hannibal. Algo, portanto, completamente fora da curva e totalmente cabível a uma das mais belas e complexas crias do Senhor do Senhor dos Sonhos

Se Deuses Americanos vingare a torcida é grande! –, é quase certo que um punhado de outras obras de Gaiman deverão ganharm também formatos live-action. Curiosamente, um termômetro que, aparentemente, deve ter servido para que produtores-executivos avaliassem esse potencial praticamente inexplorado da prosa do autor foi a radionovela de Good Omens, veiculada pela BBC Radio em abril último.
 Good Omens (ou Belas Maldições) foi escrito a quatro mãos por Neil Gaiman e Terry Pratchett (Discworld). Publicado originalmente em 1990, só foi lançado no Brasil oito anos mais tarde pela Bertrand Brasil. Para efeitos cronológicos, pode-se dizer que foi o primeiro romance de Gaiman e narra com um humor negro ímpar a história de Adam Young, o Anticristo em pessoa, um garoto de onze anos de idade que deveria engatilhar o Apocalipse, mas como fora trocado na maternidade e criado por uma típica família britânica, tudo que ele deseja é se divertir com sua “gangue”. 

Paralelo a sina de Adam, somos apresentados a Arizaphale, o arcanjo do Portão Leste do Jardim do Éden e Crowley, a serpente que instilou Eva a morder aquela maldita maçã. Dois amigos improváveis que gostam de viver entre os humanos e têm exatos três dias para sabotar esse suposto cataclismo bíblico.
 Na contramão, querendo acelerá-lo, temos os quatro Cavaleiros do Apocalipse: Guerra é uma linda mulher que alimenta discórdia onde quer que passe; Fome é um CEO do ramo alimentício que inventou uma comida industrializada que nem engorda e tão pouco alimenta; Morte é um senhor de poucas palavras; e Poluição, que tomou o lugar de Peste após ela se aposentar em 1929 com a invenção da Penicilina

Belas Maldições é daqueles livros que você se esquece de respirar, e tal como Deuses Americanos sempre foi alvo de especulações quanto a adaptações para outras mídias.Com a participação ativa de Gaiman nos bastidores, a radionovela da BBC pulou toda a burocracia de Hollywood e acabou entregando um produto¹ que sobrepujou as limitações de um audiobook, estimulando a imaginação com boas atuações e efeitos sonoros que capturam a atenção dos ouvintes. À primeira vista parece démodé, mas o que a rádio inglesa fez foi levar os populares podcasts para outro nível²

¹ Que por acaso é também uma bela homenagem post mortem.

² Um nível muito acima de uma radiodifusão dominada por forrós, pagodes, sertanejos...
 Para promover a adaptação, a BBC Radio encomendou galerias de arte com passagens e personagens de Belas Maldições. Todas são intrigantes, mas as composições de Sean Phillips (Criminal) – reproduzidas ao longo do texto – saltam aos olhos.