Quer dizer, imagine o caso de J. K. Rowling, a famosa escritora de Harry Potter. Ela e sua progênie são os únicos proprietários de um universo literário ficcional que alçou ao status de franquia milionária e, recentemente, um sucesso de público que até hoje a Warner Brothers ainda não conseguiu repetir. Imagine também que daqui há vários invernos ela conheça seu último inverno e, com muitos invernos ainda porvir, seus herdeiros passem a serem os donos legítimos dessa marca, podendo desfrutar de seus despojos e até mesmo dos destinos criativos dos personagens. Esse, portanto, seria um desdobramento hipotético o qual, a título de exemplo, usufrui o irascível rebento de J. R. R. Tolkien – que resguarda a Terra Média com “Um Anel” forjado em documentos legais tão poderosos quanto a famigerada joia de Sauron.
Não que, historicamente, o controle criativo de Star Wars sempre esteve sitiado e sob o jugo de Lucas, pelo contrário, os fãs têm conhecimento de que a atual configuração daquele universo é fruto de um trabalho colaborativo tão extenso, que fugiu completamente ao domínio do criador. Estamos falando da expansão daquele universo, “fanfics” com o aval extraoficial de Lucas e que, muito embora, tenham sido substratos para conceitos, tramas e personagens, por sinal, muitos deles, inclusive, aproveitados na nova trilogia e em Clone Wars – verdade seja dita –, nunca conseguiram uma sustentação canônica 100% confiável, como muitos fãs gostariam de crer.
Doravante, o que a Disney fez – e fez muito bem! – foi efetivar a presumida transição da gestão Dark Horse para a Marvel, de modo que caberia a segunda a manutenção do novo universo expandido em quadrinhos – e agora sim com o status oficial de cânone. A julgar pelas primeiras séries, a passagem de editoras foi algo mais que uma mera dança de cadeiras:
Star Wars: Skywalker Strikes
O que é brincadeira é o quanto esse arco de debute é bom. Tu realmente acreditas que essa sim foi de fato a primeira história que degustastes após assistir o icônico Episódio IV. O enredo em questão coloca Luke e Cia. em uma missão para desmantelar uma das principais fábricas de armas do Império. De leitura rápida e arte deveras cinética, é daqueles álbuns repletos de piadas internas, para fãs mesmo. O desfecho da história entrega ao menos uma ou duas premissas instigantes para o próximo arco.
Star Wars: Darth Vader, Volume 1
A narrativa de Kieron Gillen (The Wicked & The Divine) e Sal Larroca (Invincible Iron Man) propõe uma busca de Vader pela redenção, que ocorre nos bastidores da série carro-chefe, apresentando também a simpática Doutora Aphra e os dróides Triplo-O e BT – variantes “psicopatas” de C3PO e R2D2:
Star Wars: Princess Leia
Star Wars: Kanan, The Last Padawan
O primeiro foi um Padawan que sobreviveu a Ordem 66; e o segundo, o “Padawan” do primeiro. Paradoxal, hã? Exatamente! E reside aí uma dinâmica no mínimo peculiar, onde o “Mestre” nunca teve a chance de completar seu treinamento e um “Padawan” que terá que se contentar com um treinamento meia-boca. O quadrinho de Greg Weisman (Young Justice) e Pepe Larraz (Wolverine & The X-Men) se debruça exatamente nos anos perdidos de Caleb Dume, logo após o massacre dos Jedis.
No mais, o horizonte reserva ainda dois grandes lançamentos até a estreia do Episódio VII, quais sejam:
Star Wars: Lando, por Charles Soule (Monstro do Pântano) e Alex Maleev (Demolidor):
Star Wars: Shattered Empire, por Greg Rucka e Marco Chechetto (Justiceiro):
¹ IMHO, o ideal seria que os atuais realizadores fizessem uma triagem corajosa dos quadrinhos e livros mais relevantes, pinçando aqueles que representam o ideário de uma franquia que nunca poderá ser trabalhada em todos os seus meandros.
² Mal posso esperar para ver a acareação entre Vader e sua outrora Padawan, Ahsoka Tano. Promete ser um dos grandes momentos de Rebels em 2015.