“...a criatura é maior que um homem, possui as dimensões totalmente inumanas. Ela poderia ser facilmente confundida com um urso caminhando em pé... se esse urso fosse feito de plantas, matéria vegetal em decomposição e terror. Terror imenso que ganha contornos de insanidade ao reparar que os olhos da monstruosidade esboçam não só uma inteligência superior, mas uma certa dose de compaixão, baseada na ciência que basta um balançar de seus ombros para a espécie humana ser aniquilada e a Terra voltar para o domínio Verde.”
Exagerei? Acho que não. Desde a passagem de Alan Moore pelo Monstro do Pântano, o personagem obscuro da DC Entertainment ganhou dimensões poderosas, um representante das forças da natureza, capaz de fazer frente a deuses e monstros. Por isso mesmo, perdoe o trocadilho, escrever uma história do Monstro do Pântano depois da fase do Mago de Northampton é um “terreno pantanoso”. A fase do Alan Moore não definiu só um obscuro personagem de segundo escalão, mas foi também um dos alicerces do selo Vertigo, o playground adulto da DC.
Mesmo assim, a editora DC encarou o desafio e incluiu o
Monstro do Pântano em um de seus título dos Novos 52, passando a responsabilidade do primeiro arco
para Scott Snyder, nome em ascensão na DC.
O autor respeitou o terreno sagrado e começou o run sem
fugir muito dos conceitos criados por Alan Moore. Alec Holland, o alter ego do
Monstro, é o humano escolhido pelo Verde para ser o Campeão do reino Vegetal
(um conceito muito parecido com o Elemental da Terra concebido por Moore) para
defender o planeta das influências de Sethe – ou Podre, o reino da entropia.
Outra novidade é que Abigail Cabe, o eterno par romântico do Monstro do Pântano
está bastante envolvida com as forças da Podridão, deixando todo o
desenvolvimento romântico com leve toque shakespeariano.
Não, não é um texto do Bardo. Nem mesmo é um texto do
bardo... de Northampton. Mas estabeleceu toda a força cinética que
impulsionaria as 40 edições da série, mais três anuais e edições especiais.
Scott Snyder conduziu com competência as 20 primeiras
edições, restabelecendo o Parlamento das Árvores nos pântanos da Lousiana,
criando um freio conceitual para a onipotência do Monstro do Pântano ao manter
uma parcela humana dentro da carcaça vegetal. Snyder reforçou também a persona
de Anton Arcane como o nêmeses do Campeão do Verde e praticou um fan service branco num crossover com o Homem-Animal.
Nada muito fantástico, mas
coerente e acima da média dos títulos
dos Novos 52. Com a saída de Snyder, quem assumiu os roteiros foi Charles Soule...
mas quem é Charles Soule?
Soule é um profissional da nova geração e já trabalhou para
outras editoras, como Image e Marvel (onde atualmente dirige o título dos Inumanos). Um daqueles nomes que bate o cartão e cumpre as oito horas de trabalho sem grandes
destaques. Em outras palavras, um B-Side, assim como o Monstro do Pântano.
Porém, esse escritor pouco conhecido fez uma parceria mágica
com Jesús Saiz e não hesito em dizer
que essas 20 edições finais do Monstro do Pântano são melhores dos que a fase
inicial do Snyder. O arco não deixa nada a desejar também em relação a
consagrada fase do Moore.
Arrisco dizer que em alguns momentos, o tom mais
leve e sem nuances da trama de Charles Soule lembram um blockbuster de verão e
são um contra ponto excelente para o Monstro do Pântano ecologicamente correto
do Alan Moore. Pode haver perda de nuances e profundidade, mas em contra partida
o Monstro do Pântano voa com asas de bananeira, o que é um acréscimo a ser
considerado.
O arco lembra muito também os esboços que um jovem autor
inglês encaminhou para a editora DC antes de assumir Sandman e se tornar uma
das figuras mais importantes da indústria do entretenimento. Ao escrever
Orquídea Negra, Neil Gaiman desejava criar uma saga ecológica reestruturando
toda a mitologia vegetal UDC, algo
bastante parecido com o segundo desenvolvimento que Charles Soule deu para os
Reinos de Poder. Essa estrutura criada por Gaiman é descrita em Passeando com o
Rei dos Sonhos (lançado aqui pela HQM Editora) e vale a pena correr atrás.
Nessa nova etapa do título, o Monstro do Pântano entra em
conflito direto com o próprio Parlamento das Árvores, formado por antigos
Avatares do Verde que perderam seu poder no mundo real, mas ainda sustentam
enorme poder político. Uma dessa manobras envolve um antigo personagem do
Monstro do Pântano. Jason Woodrue (a.k.a. Homem Florônico) é testado como um
potencial substituto para a função de Avatar do Verde. Lady Ervas, uma antiga
versão do Monstro do Pântano, volta ao mundo real e desejosa por retomar seu
pode antigo.

Novos Reinos e Avatares aparecem, como o Reino do Fungo e o jovem Reino das Máquinas. Mas são os novos coadjuvantes que conduzem muito bem a história, personagens cativantes interessantes que agitam a trama.

Novos Reinos e Avatares aparecem, como o Reino do Fungo e o jovem Reino das Máquinas. Mas são os novos coadjuvantes que conduzem muito bem a história, personagens cativantes interessantes que agitam a trama.
Todo esses elogios rasgados são justificáveis. O Monstro sobreviveu à poda do universo Vertigo e não fez um papel feio ao ser enxertado do Universo DC pós reboot, interagindo muito bem não só com o lado sobrenatural mas também com medalhões como Superman ou Aquaman.
Todas essas pontas e subtramas são fechadas de maneira
elegante no arco final, deixando a impressão que a série terminou um pouquinho
cedo demais. Mas isso só reflete que essa foi uma ótima fase do Monstro do
Pântano e que talvez tenha sido subestimado por grande parte dos leitores. Um dos poucos títulos atuais da DC Comics que é possível recomendar sem medo.
...
Vladimir Putin indicaria: O cafezinho no final daquela refeição. Uma dica saideira. No caso do Monstro do Pântano, recomendo ficar de olho na republicação da fase sagrada de Alan Moore (lançado aqui pela Panini). Deve estar no quarto volume, quando o mago de Northampton faz sua versão antediluviana da Crise nas Infinitas Terras. Para ler chorando.
Só para os REALMENTE fortes: Garimpe (com cuidado) o live action The Return od Swamp Thing (1989) um clássico trash com a presença magnânima de Heather Locklear encarnando uma Abby Arcane de primeira grandeza.
Só para os REALMENTE fortes: Garimpe (com cuidado) o live action The Return od Swamp Thing (1989) um clássico trash com a presença magnânima de Heather Locklear encarnando uma Abby Arcane de primeira grandeza.

































