quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Queda do Bat-Mirim

Não adianta se iludir ou insurgir-se contra a própria intuição, as coisas costumam ser o que são e o primeiro ano de Gotham, para alegria do patrão, foi a Meca das boas intenções. Caóticos e desprovidos de uma estrutura narrativa sólida, a impressão que persiste ao fim desses intermináveis vinte e dois capítulos, é que tanto o showrunner, Bruno Heller, quanto os demais colaboradores tinham apenas conhecimentos sinópticos acerca daquele universo. 

Algo que, por sinal, não deveria ocorrer entre equipes criativas que estivessem à frente da mitologia gothamita, seja nos quadrinhos ou em adaptações live-action. Fato é que, aos meus olhos, se esse conhecimento de causa já parecia parco, no season finale o copo transbordou ao testemunhar a opção amadora e precipitada ao destino original que eventualmente teria o personagem Sal Maroni
 Um desserviço à construção histórico-cultural de dois personagens clássicos que só não foi pior que o conferido ao tacanho argumento de que os Wayne teriam sido vítimas de queima de arquivo. Aliás, uma proposição dessa natureza vai de encontro com o próprio gatilho psíquico que motivaria a sina de Bruce. Quer dizer, o aleatório e o despropósito do crime de Joe Chill é algo que nunca poderia ser racionalizado e passível de encerramento; por outro lado, o que ocorre na série Gotham, sim. 

Contudo, mesmo graves, não foram esses dois pontos que sabotaram a consistência do programa. Credito isso a cacofonia de tramas e subtramas mal resolvidas do que me parece ser agora o mais novo enigma da medicina: um transtorno coletivo de déficit de atenção e hiperatividade do núcleo criativo de Gotham. Sobre isso, vamos lá:
 Renee Montoya e Crispus Allen → Personagens que questionaram a idoneidade de Jim Gordon e que, aparentemente, desempenhariam papéis cruciais no combate a corrupção do Departamento, foram descartados tão logo o futuro Comissário fora inocentado. Uma pena, eles poderiam ter catalisado boas subtramas e aliviado a carga procedural do show, mas, olhando para os parceiros em retrospectiva, parece que eles deram o ar da graça apenas para reafirmar a homossexualidade de Montoya. O que, devo dizer, foi lamentável, haja vista que os dilemas da personagem nos quadrinhos sobrepujam as questões de gênero.
 Leslie Thompkins & Jim Gordon → A função da médica no original não poderia ser mais clara: ela era colega de profissão de Thomas Wayne; fez o primeiro atendimento de Bruce após o incidente no Beco do Crime; e, se muito, teve um flerte com Alfred. Frise-se: Alfred! Corrijam-me se estiver equivocado, a Dra. Thompkins nunca interagiu significativamente com Gordon e isso não quer dizer que poderiam num âmbito live-action, mas colocá-los como par romântico? Perdão, amigos, mas não dá; o que daria era ter colocado o Jim em rota de colisão com Sarah Essen, isso sim. Todos ganhariam: tons cinzentos para o personagem de Ben McKenzie; e Barbara Kean, que se grávida, e, quem sabe, manipulada numa manobra corajosa de inversão de papéis como a Martha Wayne de Brian Azzarello e Eduardo Riso em Cavaleiro da Vingança, seria algo, digamos, catártico. Algo, portanto, mais do feitio de uma Netflix, e não de uma Fox
 Arkham & Jogos de Guerra → Sugeriu-se que haveria uma disputa imobiliária entre mafiosos e a própria Wayne Enterprises sobre o controle do entorno do asilo, o que, segundo o Pinguim, resultaria em uma guerra de facções criminosas que deixaria a cidade em ruínas. Eu não vi. Vocês viram? No mais, perdeu-se a oportunidade uma bela oportunidade de adaptar uma das melhores sagas da história recente do Batman: Jogos de Guerra. “Mas como?”, vocês me perguntam: bastaria ter colocado Gordon no papel do vigilante, minando a autoridade de Loeb na polícia e deixado Roman Sionis fazer suas jogadas. Resultado: season finale perfeito, com Gordon de joelhos sobre um mar de corpos, tanto de oficiais que compraram sua briga quanto marginais de ambos os lados pegos no fogo cruzado. 
 Gostaria de dizer em minha defesa que não sou tão chato assim, afinal, gostei do apuro técnico, a ambientação e, vá lá, a violência, empregada num limite bem próximo do correto; também me surpreendi com o desempenho de Nigma como CSI e alívio cômico, muito embora tivesse preferido o personagem um pouco menos afetado; a ideia supersticiosa por trás dos bandidos de quinta que embuçavam o Capuz Vermelho; e de Donal Logue, que nasceu para dar vida ao Detetive Bullock


Ainda assim, sou hipertenso, e receio que a experiência foi traumática demais para o meu pobre coração quiróptero, deixando na lona qualquer expectativa de retorno para o já confirmado segundo ano. Do mesmo modo, temo também que, caso o casting de roteiristas não passe a destinar algum tempo nos arquivos da DC Comics, é muito provável que a concorrência¹ do horário no vídeo supra, abocanhe a fatia do público que autoriza sua manutenção na grade. Para fechar a fatura, esperava mais de Bruno Heller, afinal, suas credenciais eram impecáveis, mas até aí, as de Martin Campbell também eram e deu no que deu

¹ Só na DC entertainment uma sandices dessas é possível: dois universos nativos da mesma casa, disputando entre si?!

3 comentários:

Marlo de Sousa disse...

Off-topic, mas nem tanto, quero reclamar de Batman Eterno. Já sabemos que quase nada é definitvo neste meio, mas aí temos um certo destino aguardando Gordon ao final de Convergência (e Snyder vai ter que cortar um dobrado pra aquela ideia dar certo), o que provavelmente deixará o neo-escoteiro Jason Bard como Comissário (isso aqui é mera conjectura, eu não sei como B.E. termina).

A manobra me faz lembrar de como um personagem forte, como era o Comissário Michael Akins de Gotham Central, foi simples e totalmente obliterado em favor do saudosismo de ter Gordon de volta ao posto. Durante toda a série, Akins foi incorruptível. No Um Ano Depois, ele é apenas mencionado como afastado por corrupção. Não soubemos o que houve ou só eu não li sobre o que se passou?

Abraço!

doggma disse...

Terminei. E vamos lá...

Parafraseando um chegado bebum, "não esperava nada e foi uma boa surpresa". Não tive grandes referências quadrinhísticas (fora "Ano Um" e medalhões quetais) pra me irritar com alterações broxantes. Sim, houveram algumas coisas, em geral relativas ao remix cronológico - bisneto daquilo que fizeram várias vezes em "Smallville". Mas no campo puramente televisivo, só me incomodou ver um detetive se reportando a um garotinho sobre o andamento do caso do assassinato de seus pais. Pena foi alguma debandada de público devido à presença do Brucinho - o moleque foi honesto e não compromete, tampouco sua boa química com o ator que faz o Alfred.

De resto, o tom farsesco, quase pulp, paralela à realidade nua e crua de um The Wire, foi bem tecida. Lógico que a opção seria melhor, mas...

Também gostei do Nygma. O ator rendeu muito com o pouco que deram. E curti também o controverso Cobblepot. Embora tenha triscado o tempo todo nos limites do histriônico, quase chegou lá - "chegou lá" na cena surreal da execução na prensa de ferro-velho. Mermão, que foi aquilo... até o Scorcese teria aplaudido se assistisse.

E o tal "Jerome", o Coringa subliminar no ep. do circo? Emulou direto na veia do Nicholson.

O McKenzie achei correto no papel, mas é como você destrinchou. É latente a falta de cinza na vida do futuro comissário. Fica ainda mais complicado ao lado de Donal Logue, o ladrão de cena do ano. Quem diria. Última coisa que me lembrava dele era quando auxiliava o Deacon Frost contra o Blade, rs.

Maroni e Falcone vão fazer falta. Já Fish Mooney andava mesmo sem função desde a queda do clube. Também me surpreendi positivamente com a sangueira na reta final.

Enfim, impressão geral de uma temporada divertida e entretenedora, embora o season finale tenha sido só mediano. Muitas idas e vindas, discursos nonsense e implausibilidadezinhas em série.

Mas ainda assim, muito, mas muito melhor que o season finale de Arrow... Urgh!

Luwig Sá disse...

Marlo, o que fizeram com Michael Akins foi leviano, para dizer o mínimo. Falando em Gotham Central, será que sai mesmo o HC prometido? Expectativa grande!

Dogg, nem me fale sobre Arrow! E olha que esse ano havia começado tão bem, mas após o episódio de natal - em que Oliver é trespassado por Ra's - a coisa degringolou de vez.

A intenção original era redigir um texto mais enxuto, e para tanto teria que omitir várias passagens, deixando transparecer mais o que senti falta em Gotham do que propriamente o que foi encenado. Seu comentário complementou minha "pseudo-resenha".

E, bem lembrado, as dissimulações do "Jerome" foram gratas surpresas. Se ele não for o "Coringa", pelo menos, entregou uma das melhores sequências desse primeiro ano quando resolveu expor sua "verdadeira" faceta (?).

Bom, na verdade, o que sabotou Gotham foi aquele tal de "Demolidor" da Netflix. Uma vez que você entra de cabeça naquela experiência imersiva de 13 capítulos com o melhor desenvolvimento de personagens que já vi numa adaptação live-action de HQs, para depois voltar a realidade de 22 episódios que sequer arranharam a superfície de uma mitologia tão rica quanto a gothamita... enfim.